Não é xenofobia. É falta de memória e de educação

O pior lugar do mundo para estar é no meio. No avião, numa fileira de três, pode haver um folgado de cada lado, com o braço estendido e as pernas abertas. E, você espremido, bem educado, terá dificuldade para pedir licença. O irmão do meio corre o risco de ficar entre a paixão do pai pelo primogênito e da mãe pelo caçula. Claro que as melhores famílias não correm este risco. Num país em que jornalista dá tapa na cara, enquanto o programa está no ar, e o grito supera a reflexão, difícil acreditar que haverá tempo para o argumento. Tempo para dizer que o técnico estrangeiro nos faz bem, mas os brasileiros não são todos uma porcaria.

Mas este blog se propõe a ser um pêndulo, não um martelo. Não se trata de estar no muro, mas de ponderar os dois lados, os prós e os contras, sem radicalismos.

Se no ano que vem, o Brasileirão começar com 20 técnicos estrangeiros, 17 vão embora antes do final do ano, porque aqui 17 clubes mudam de treinador durante a campanha. Aqui, o presidente contrata, o conselheiro discute, vaza a discordância para a imprensa, que diz que a escolha foi ruim, a imprensa replica, a torcida escuta, a arquibancada critica na derrota e o presidente pressionado demite. O ciclo vicioso recomeça. O ciclo virtuoso é o que Jorge Jesus viveu no Benfica.

Contratado, vindo do Sporting Braga, não era unanimidade, o presidente Luis Filipe Vieira bancou, ganhou o primeiro campeonato, levou 5 x 0 do Porto, fechou o segundo torneio 21 pontos atrás, a imprensa discutiu, a torcida criticou, perdeu a semifinal da Liga Europa para o Braga, foi vice no terceiro ano, perdeu o quarto campeonato que parecia ganho, com gol de Kelvin, caiu na final da Liga Europa contra o Chelsea, a sociedade anônima desportiva exigiu a demissão, o presidente bancou e Jorge Jesus virou o maior técnico do Benfica no século 21.

Alguém dirá que aqui somos xenófobos. Que o diga meu pai, que aprendeu na chegada ao país que precisava perder o sotaque, porque os garotos na rua zombavam dele. Isso aconteceu em 1955. O Brasil não é xenófobo? O mundo é e este país está no mesmo contexto de intolerância. França e Alemanha discutem argelinos e turcos. Daí a dizer que Alberto Valentim foi xenófobo com Jorge Jesus, vai o esquecimento de que houve uma briga esportiva durante o episódio. Alberto foi extremamente deselegante, ao dizer que “deveria deixar a boquinha fechada.”

Não, Alberto… Não.

Mas isto não é xenofobia. É falta de educação, mesmo.

Como quando Felipão e Luxemburgo se estranharam à beira do banco de reservas e um desferiu um soco no outro. Ou quando Jorge Jesus invadiu o campo depois de um Marítimo x Benfica e empurrou o brasileiro Rafael Miranda. Não era xenofobida de português contra brasileiro, na Ilha da Madeira. Era briga mesmo!

Esquecemo-nos de que o intercâmbio é parte da história do futebol brasileiro. Que Vicente Feola foi assistente de Bela Gutman, no São Paulo, em 1957. Um ano depois, era técnico titular da seleção brasileira na Copa do Mundo. É óbvio que sua experiência ao lado do treinador húngaro, referência do futebol português porque dirigiu o Benfica, fez-lhe bem. Fez bem ao futebol brasileiro.

O livro “Escola Brasileira de Futebol”, deste autor, conta que Flávio Costa ficou bravo, saiu do clube esquecendo-se de levar o seu carro (!), em 1937 (!), quando ter um automóvel era um luxo e o Flamengo preferiu contratar o húngaro Dori Kurschner, que nos ensinou como era o WM, o primeiro sistema tático formatado depois do 2-3-5.

Jorge Jesus faz bem ao futebol brasileiro. Os técnicos brasileiros não estão bravos com ele. Estão furiosos conosco, que tratamos tudo como branco ou preto, sem direito ao cinza. Porque se o estrangeiro é bom, o brasileiro é fraco. Como se alguém estivesse discutindo isso na Inglaterra, onde o Chelsea contrata o inglês Frank Lampard, apesar de nenhum treinador local ganhar o campeonato desde 1992.

Ninguém levantou plaquinha, ninguém fez panfleto para dizer que tinha visto antes o fracasso cultural dos treinadores brasileiros, quando passaram por aqui Paulo Bento, Ricardo Gareca, Lotthar Matthäus, Daniel Passarella, Juan Carlos Osorio, Edgardo Bauza, Jorge Fossatti, Diego Aguirre, Miguel Angel Portugal, Sérgio Vieira… Ninguém se lembra de Filpo Nuñez, Juan Mujica, Fleitas Solich, Dori Kurschner, Bela Gutman, Armando Renganeschi, Ramón Platero.

Precisamos parar de fazer jornalismo panfletário. Chega de palavras-chave. Aprofundar é explicar, detalhar, fazer entender. Não é gritar.

O Brasil é o país da mistura e da convivência, apesar do preconceito. Aqui há racismo e xenofobia, mas Neymar é filho de negro com branca e meu avô português deu certo depois de comprar uma freguesia para entregar pão. O Brasil sempre foi o país da tolerância, apesar das discordâncias. Hoje, virou o país do tapa na cara. Nos velhos anos 1990, o diretor de arte de PLACAR, Walter Mazzuchelli, ensinou-me uma piada: “Respeito muito a opinião dos outros, mas a sua é uma merda!”

Quem diria que a brincadeira seria precursora de “concordo com você, desde que você concorde comigo.”

Não é xenofobia.

É falta de educação, de memória e de criatividade.

Até de vocabulário. Há muitas outras palavras, além de xenofobia, para definir o que está acontecendo nesta terra em transe.

Por PVC